Pesquisadores discutem a relação entre Ciência e Tecnologia e os Direitos Humanos

qua, 11/18/2020 - 09:37
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De modo geral, os brasileiros percebem a ciência e a tecnologia como um domínio distante, restrito a algumas pessoas que discutem assuntos pouco acessíveis para o cidadão comum. “Fazer os sujeitos perceberem a ciência e a tecnologia como pertinentes a seus interesses - seja no âmbito do conhecimento ou da política - é um dos passos essenciais para sua transformação em um ambiente inclusivo, ou seja, receptivo à diversidade e capaz de atender a necessidades de amplos espectros da população”, opina Néri de Barros Almeida, Diretora Executiva de Direitos Humanos e mediadora do webinário Agenda Direitos Humanos, onde aconteceu o debate, dia 12/11. 

Por isso discutir direitos humanos na ciência é também falar sobre as barreiras que as mulheres enfrentam nesse ambiente. Márcia Barbosa, física e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) conhece bem essa situação: há pelo menos 20 anos, ela leva esse debate adiante.

Foi ainda nos tempos da Guerra Fria que Barbosa começou a abordar a visão preconceituosa dominante, entre cientistas. Numa ilustração que acompanhou um artigo da pesquisadora naquela ocasião, via-se uma cientista dividindo a atenção entre microscópio, fogão, filhos. Em 2020, durante a pandemia, uma figura bastante semelhante voltou a ser impressa numa revista ilustrando a mulher cientista.

“A visão misógina é de que mulher cientista tem que cuidar da casa, dos filhos, fazer todas essas tarefas.”, afirmou Barbosa comparando as duas imagens separadas por décadas. “Isso pra mim demonstra que apesar de estarmos tão preocupados com os direitos humanos, isso não tem nos ajudado a avançar quando o assunto são as mulheres na ciência”, conclui.

Para Barbosa, fortalecer o papel das mulheres é fortalecer os direitos humanos. Evidências não faltariam de que a participação delas em todos os níveis de tomadas de decisão só traz benefícios. Pesquisas mostram que “Diversidade significa mais eficiência”, resumiu.

Ao refletir sobre direitos humanos e ciência, Barbosa defendeu que a interdisciplinaridade, a comunicação e a tecnologia são fundamentais para a produção de ciência a favor dos direitos humanos. “Precisamos incorporar o conhecimento como um direito fundamental de cada cidadão”, pontuou.

Num momento em que ciência e universidade estão sob ataque e que evidências científicas são vistas como inconvenientes por governos de diferetnes países, é preciso cada vez mais buscar o apoio da sociedade, afirmou Barbosa.

Dando sequência ao debate, Ricardo Galvão, físico e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que tem defendido a instituição e seus cientistas de ataques, acredita no poder da educação básica para aproximar ciência, tecnologia e direitos humanos.

Por outro lado, ele reconheceu que essa questão nunca foi uma preocupação nas estratégias de desenvolvimento científico até mais recentemente. O pouco acesso à ciência pela população pobre, as falhas no processo de educação de disciplinas como Física e Química ainda são alarmantes. Estima-se que o déficit de professores de Física no país seja de 70 mil, citou como exemplo.

“A comunidade científica tem que se preocupar cada vez mais com a educação, para que as crianças aprendam a admirar a ciência. Não há maneira de conscientizar a população sobre a questão dos direitos humanos sem educação”, afirmou Galvão.

Durante sua fala, ele relembrou a experiência com um aluno do ensino médio interessado em Física, morador da favela de Paraisópolis, que visitou, por intermédio de uma professora da escola, laboratórios da Universidade de São Paulo (USP).

“Ele tinha 14 anos e fazia perguntas que os alunos de graduação não costumavam fazer”, falou Galvão sobre o conhecimento avançado do estudante. Filho de mãe solteira, o rapaz teve que se mudar de cidade após o assassinato do avô e Galvão não soube se ele chegou à universidade.

“Temos situação no país de uma população altamente empobrecida, mas com muita capacidade para se destacar e mudar a nossa sociedade. Nós não teremos um desenvolvimento sustentável, equânime e socialmente justo nesse século se não nos basearmos fortemente na ciência”, defendeu, adicionando a necessidade de uma política científica que faça uma oferta justa de oportunidades à população.

Físico e reitor da Unicamp, Marcelo Knobel afirmou que há muitas questões a serem tratadas quando se consideram direitos humanos e política científica, inclusive nas universidades públicas.

As ferramentas mais modernas de comunicação - mídias sociais, transmissões online, podcasts - têm um papel importante nessa interseção entre direitos humanos e ciência, opinou Knobel. “A ciência pode, por meio da divulgação científica ter esse lugar, ser voz entre as pessoas comuns a respeito daquilo que a ciência faz ou pode fazer pelos direitos que essas pessoas têm”, complementou.

Além dos meios tradicionais, como livros, museus, parques, é preciso ir além. “Como cientistas, temos que aprender e observar de que maneira os jovens estão consumindo informações, mídias sociais. Precisamos estudar mecanismos para poder transmitir boas informações por esses meios”, detalhou.

Foi sob a gestão de Knobel que a Diretoria Executiva de Direitos Humanos foi criada na Unicamp, em 2019, com o objetivo de desenvolver uma cultura inclusiva que atinja de forma abrangente toda a comunidade universitária e suas atividades fim, buscamos uma  integração completa dos direitos humanos em seu cotidiano.

Sobre o papel dos direitos humanos no desenvolvimento científico e tecnológico, Knobel comentou que é preciso mais ciência para que as escolhas certas sejam feitas. “Precisamos de mais ciência para compreender a percepção pública dessas questões a fim de que sejam tratadas por meio de políticas públicas adequadas”, opinou.

O próximo webinário do Agenda Direitos Humanos vai abordar o tema “Tráfico de pessoas e escravidão contemporânea”, em 26/11. A transmissão acontecerá pelo canal da DeDH no YouTube.