O Adeus a Pedro Casaldáliga

seg, 08/10/2020 - 14:03
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Ao lamentar a morte de Pedro Casaldáliga na manhã deste sábado (08/03), a Diretoria Executiva de Direitos Humanos da Unicamp se solidariza com a luta permanente na defesa dos direitos humanos e da justiça social. Bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia desde 2005, o catalão Pere Casaldaliga i Pla veio para o Brasil em 1968 como missionário católico.

Defensor da atuação da Igreja comprometida com seu papel social, tomou posições em favor dos mais vulneráveis e mais pobres, sobretudo camponeses e indígenas, desde sua chegada em São Félix. Em 1971, ao assumir a função de bispo, publicou um amplo relatório sobre as condições naturais, humanas e sociais dessa região situada entre o Araguaia e o Xingu, nomeando os conflitos e tensões e assumindo uma clara posição como líder da Igreja no local: “Para nós, evangelizar é promover o homem concreto – o próximo – e libertá-lo (...). Por causa disso, bem ou mal, em tateios ou conflitos, sempre temos enfrentado a defesa dos direitos humanos e a promoção do povo ao qual fomos enviados.” (Uma igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social)

Posicionamentos como este marcaram toda sua trajetória no país e também alimentaram duras oposições e ameaças, levando-o a lidar com perseguições da ditadura militar no Brasil (1964-1985) e de proprietários de terras locais. Em 1976, após uma reunião com lideranças locais e religiosos ligados à luta pelas causas indígenas, Casaldáliga sofreu um atentado no qual foi morto o padre jesuíta João Bosco Burnier. Sobre o trágico episódio, publicou em 2006 o livro “Martírio do padre João Bosco Burnier”.

Mas as tensões com a ditadura e os interesses de latifundiários não o impediram de continuar a promover a luta por justiça social: além de articular diversos movimentos sociais na América Latina, foi um dos fundadores do Conselho Missionário Indígena (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), organizações que tiveram um papel importante na transição democrática e na elaboração da Constituição de 1988, marco dos direitos sociais e indígenas no país.

A atuação de Casaldáliga pelos direitos humanos foi constante. Ao mesmo tempo em que fortaleceu os movimentos sociais e continuou a gerar reações de grandes proprietários, também alcançou grande reconhecimento não apenas no Brasil. Recebeu o Prêmio Nacional da Justiça e Paz da Espanha (1988), foi indicado para o Nobel da Paz (1992) e foi homenageado em diversas universidades (UFMT, 2003, PUC-Goiás, 2012, PUC-São Paulo, 2014, UNEMAT, 2017).

A Unicamp foi a primeira universidade a conceder a Casaldálida o título de doutor honoris causa, em 2000, por iniciativa do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Participaram também dessa homenagem membros dos movimentos indígenas e da Pastoral da Terra, além de Samuel Yriwerana Karajá, advogado e cacique da aldeia de São Domingos, em Luciara, e o jornalista e escritor Francesc Escribano, autor do livro "Descalço sobre a terra vermelha", biografia de Casaldáliga, escrita originalmente em catalão. A obra, traduzida para o português por Antônio Carlos Moura Ferreira, foi publicada pela Editora da Unicamp e foi a base para o documentário dirigido por Oriol Ferrer.

Durante a homenagem, o bispo propôs recebê-la não como uma honra, mas como o reconhecimento de uma paixão, passionis causa: a paixão pela utopia. E a define como “uma paixão escandalosamente desatualizada, nesta hora de pragmatismos, de produtividade, de mercantilismo total, de pós-modernidade escarmentada. Mas que é, com outra palavra, a paixão da Esperança” (link)

Que a atualidade e o testemunho dessas palavras, 20 anos depois, continuem a estimular o compromisso e a luta em defesa dos direitos humanos e da justiça social.